Com o advento das lutas de Vale-Tudo, o Boxe ficou um tanto quanto esvaziado para a minha pessoa. O afastamento de Balboa e Apolo Doutrinador das lonas já havia me desmotivado, o tempo passou e a falta de desorganização ficou total. Convenhamos, a graça de ver duas pessoas se enxugarem na bordoada atingiu níveis nunca dantes imaginados com a aparição dos embates em que tudo – quase tudo, vá lá – é permitido.
Popularizado, todo esse novo conceito transformou a milenar arte do pugilato numa prática quase infantil para os entusiastas da porrada moderna. Ninguém em sã inconsciência trocaria voadoras, joelhadas e cascatas de sangue por socos com luvas gigantescas intercalados pelo nefasto clinch. Em suma, o boxe passou a rivalizar em emoção com aquelas lutas com cotonetes gigantes em cima de uma trave.
Pensava assim até o dia em que me dirigi às dependências do número 629, da Rua 13 de Maio, no centro de Curitiba, capital do Paraná. Responde por este endereço o teatro Lala Schneider, e é claro que eu não estava lá para assistir uma peça. Eram jogados cinco de abril de 2005 e lá eu iria para engrossar a audiência de uma luta de boxe, aprumar minha opinião sobre esse esporte que a turma diz que não é esporte.
Desta feita, Rodrigo Abud não me acompanhava, visto que se encontrava em lugar incerto e não sabido. Ao meu lado, Eduardo Santana, bróder e jornalista, e Hugo Pontoni, também jornalista e responsável pelos cliques à meia luz que ilustrarão essa reportagem.
Soa o gongo
Na entrada, mandamos aquele carteiraço amigo para não pagar nada, afinal, apoiamos a causa do esporte amador. De quebra, ainda descolamos uma visão privilegiada, mesmo chegando muito depois de todas as pessoas que pagaram ingresso e disputaram uma cadeira bem posicionada. Não que eu me orgulhe disso, mas, acontece.
Eu nunca tinha ido ao Lala e fiquei muito bem impressionado com as suas instalações. Um teatro pequeno e aconchegante, em ótimas condições para abrigar um incêndio. Tomado por uma platéia ávida por boas combinações de socos. Senhores e senhoras de idade, moços e moças, despombalizados em geral.
Chegamos no desenrolar de uma luta amadora, aprumamos os nossos por ali e passamos a degustar o combate. Bastou apenas uma muca certeira para todo um conceito cair por terra. Que bífa!

-- Vamos lá, moçada! Podem se arregaçar...
Impressionado pela pujança do golpe, o óbvio ululante se adonou das minhas portas da percepção. Reitero: a turma xóxa a porrada sem lei. Assistindo pela televisão não se tem a real dimensão da potência das lapadas. Ao vivo são outros quinhentos.
No caso das lutas amadoras, os participantes utilizam aquele simpático capacete protetor, o que eu acredito não deva fazer muita diferença na absorção dos tiros, influindo apenas se grau 10 ou 9 de enxaqueca nas duas semanas posteriores à luta.
De bem com a verdade do boxe, aos poucos fui sacando os detalhes do espetáculo. Nada como uma parada roots. É claro que todos gostariam de dar um tapa na cabeleira do Don King em algum cassino de Las Vegas, especialmente aqueles que empregam um tutu na jogada. Mas o glamour da alta roda do boxe mundial certamente não tem o charme dos combates no underground. A começar pelo gongo manual, que recebe tratamento de diva nas mãos do responsável pelo tilintar obrigatório do esporte.

Gongo manual no aconchego
O pega amador se desenvolveu sem que houvesse um vencedor por nocaute, o que acirrou os ânimos dos presentes para as próximas lutas. Geral queria ver alguém beijando a lona “haja o que hajesse”. Nós também, claro. E essa expectativa tinha tudo para ser saciada com a disputa principal da noite. Nada melhor para anunciá-lo que a música tema de Rocky invadindo o recinto bombada pelos alto-falantes.
A hora e a vez do olho de tigre
De um lado, Macáris do Livramento, 44 anos, o vovô do boxe para os íntimos, 107 lutas, 104 vitórias e minguadas três derrotas. Seu oponente, o argentino Hiládio Gomes, 39 anos, desafiante, dono de um cartel com 69 lutas, 51 vitórias e 18 derrotas.
Seria o embate da experiência e técnica de Macáris contra a malícia portenha de Hiládio. E bastaram algumas sapateadas sobre a lona para ficar bem claro que o argentino seria um adversário deveras manhento. Mas ao que tudo indicava, o velho Maca não cederia à catimba do adversário.

Macáris, chimbando o hermano
Ainda na fase de estudos, percebeu-se que o gato Macáris caçaria o rato Hiládio, sem qualquer conotação homossexual ou preconceituosa. Mas apesar de postar-se na retranca – utilizando da arte do tango para compor sua ronda pelo tablado – Hiládio merecia todo o respeito de Macáris, que evitava lançar-se ao ataque esbaforidamente como bem faria Clubber Lang.
Soltava alguns jabs, cruzados, apenas cozinhandinho. Aos poucos, os golpes do dono da casa iam encaixando, e a cada boa seqüência, a torcida urrava em êxtase com a iminência de nuestro hermano deitar o cabelo. Literalmente, no caso.
Mas claro, se havia um Balboa canarinho, poderia haver uma versão argentina, certo? Era o que a torcida constatava, incrédula. Gomes adotara a velha e manjada tática do Garanhão Italiano, agredindo sem parar a mão de Macáris com sua face. E quando sua cidadela parecia vencida, e o mesmo prestes a desabar, eis que ele permanecia ereto, sufocando o grito preso na garganta da rapaziada.
Até que, no quinto round, o caldo engrossou para a representação argentina. Macáris apresentou todo o seu repertório de golpes pilando Hiládio Gomes. A torcida ficou de pé e aplaudiu o quase linchamento que, não se sabe como, não configurou em nocaute.
Sexto round e nada, lá estava Hiládio, faceiro, maroto, esquivando pendularmente das direitas e esquerdas possantes que furavam o sinal em sua direção. Eis que no sétimo round, o Lala Schneider recebeu o que queria: tá lá um corpo estendido no chão!

Nenêzinho dormindo
O juiz abriu a contagem e ultrapassados os dez segundos regulamentares decretou Macáris vencedor da luta por nocaute. Com todos saciados, o dono da festa puxou o microfone pra dar aquela maguilada tradicional.
Agradeceu o apoio inestimável dos patrocinadores e anunciou a próxima disputa da noite. Subiriam ao ringue Rosilete Santos – esposa de Macáris – e a argentina Anália Martinez.
Como diria aquele, nocautear sempre é bom, agora, nocautear argentino é muito melhor.
Sai que é tua, Adrian!
Que estréia, hein amigo? Se não bastasse a brincadeira menino contra menino, teríamos agora um menina contra menina. Haja coração! E em se tratando de um combate feminino, não se poderia esperar outra coisa que não a macharada em polvorosa.
Os apupos vindos da platéia refletiam em nervosismo no semblante de ambas as lutadoras. Enquanto Rosilete parecia sentir a responsabilidade de representar a torcida, Anália demonstrava estar um pouco assustada com a situação. Mas sabe como é, foi só a luta começar pra jiripóca piar e as damas partirem para as vias de facto.

Encrespou o lado
Rosilete, no embalo da massa, partiu para cima de Anália, que tentava a sorte em raros contra-golpes. A pequenina desafiante suportava bem os ataques da brasileira. Os rounds foram passando sem que fosse possível prever um desfecho. Foi quando a voz da família brasileira entrou em ação e selou o destino da até então muralha inexpugnável Anália Martinez. Postado no córner – em dupla função, atuando como esposo e técnico – Macáris ordenou:
- Você vai ou não vai encher ela de porrada, Rosilete?
A platéia urrou com a frase, mas foi um gaiato qualquer que deu o impulso fundamental para o encerramento da luta, e fez o teatro explodir de vez ao complementar sabiamente:
- Rosilete, OUVE TEU MARIDO!
Ungida pela palavra amiga vinda das arquibancadas, Rosilete ajustou o olho de tigre e pregou a mão em Anália que envergou, fez que foi, não foi, e acabou fondo parar na lona. O amor vencia mais uma.