Etiqueta sexual para marmanjos

Publicado originalmente na Gazeta do Povo, caderno Viver Bem, dia 11 de Abril de 2010.

“Gente, a cara de vocês está impagável!” Eu não podia ver, mas imaginava. Afinal, era um dos 17 homens presentes naquela sala. E, da mesma maneira que os colegas, não escondia a tensão – me comportava como se estivesse prestes a testemunhar um ritual macabro, envolvido em uma megatransação criminosa ou na plateia de um show do Djavan.

Não era nada disso, claro. Eu havia me inscrito na palestra “Hot Sex – 69 dicas para torná-lo um amante ainda mais inesquecível” e a responsável por ministrar o programa acabara de entrar na sala, uma ex-garagem, sem qualquer janela, com a maior pinta de esconderijo secreto, cenário que reforçava o climão.

Bennet/Gazeta do Povo

“Tenho certeza que vocês devem estar pensando… ‘onde a minha esposa foi me meter, não é mesmo?”, complementou a professora, uma ruivona charmosa, de meia-idade, ainda na tentativa de dissipar o nervosismo da rapaziada, certamente por ter ido procurar logo no lado “inimigo” soluções para a intimidade.

Da minha parte, não fui indicado. Consumei a inscrição por iniciativa profissional, visando desvendar um pouco dessa nova onda de cursos para incrementar o indivíduo – no caso, sexualmente. Mesmo assim, prosseguia identificado à maioria dos parceiros. Tanto que, ao ser intimado pela “professora” sobre o motivo do comparecimento, disfarcei e larguei. “Vim para acompanhar meu amigo aqui, o Rodrigo.”

À minha esquerda, na mesinha de plástico – abastecida pela casa com toda a sorte de folders, uma cumbuca de batatinhas e uma apropriada e generosa porção de amendoim –, Abud, eterno companheiro de presepadas, riu e levou adiante a lorota. “É verdade, foi instrução da minha patroa.”

Concluída a sessão de relaxamento e aquecimento, era o momento de partir para as sugestões que, de acordo com a nossa líder, eram todas “testadas e aprovadas”. “Sou mulher, sei o que elas gostam, sou uma agente infiltrada”, disse, para o delírio da turma, composta por tiozões, trintões e uns guris.

Foi quando pintou a dica 69 no data-show: “Aposte em você (libere o latin lover)”. Veio “Exercite-se”, seguida de “Pare de fumar”. Após anotá-las em um bloquinh o – o mesmo fez Abud, atitude mantida rigorosamente até o término da apresentação, diante de um olhar intrigado do nosso companheiro de mesa – confesso ter me decepcionado.

Eu não ansiava por nada mirabolante, nenhuma manha do tipo “como sincronizar o clímax com a entrada do solo de saxofone de Smooth Operator”, clássico de motel oitentista da cantora Sade Adu. Porém, a largada estava muito superficial, nem mesmo rolava uma pegada Barry White.

Percepção desfeita ao ser cantada a sacada 67 (“Você é o que você come”), desenvolvida assim: “Meninos, a comida regula o sabor do sêmen. Kiwi e abacaxi suavizam. Café e cerveja o deixam amargo. Carne aumenta a viscosidade”. “Ah se eu não vou à feira amanhã”, emendou um malandrão, causando gargalhadas.

Nesse ritmo, a exposição deslanchou. Um incentivo no estilo autoajuda aqui, uma passagem “sacanageira” ali, conteúdo apresentado sempre com propriedade pela querida X-9 do mulherio. Sem ser didática ou descambar para o hardcore. “A mulher que está esperando vocês em casa já é outra mulher. Podem acreditar”, incentivava.

Entre os tópicos, algumas dinâmicas – minutos de profundo constrangimento. Opor­­tunidade para sentir a diferença na palma da própria mão da “língua mole” e a “língua dura”, proposta da dica 34 (“Como um gatinho”), e o “Beijo de borboleta” (25).

Chance também de sermos apresentados a um vibrador – artefato considerado, por muitos marmanjos, rival importante da classe no mundo sexual moderno. Destemido, como de costume, Abud se prontificou a conversar com a fera. Foi lá na frente e sentiu o ronco do motor à pilha no braço. “Cuidado, ele é traiçoeiro”, mandou alguém.

Duas horas ininterruptas mais tarde, chegamos à dica número 1. “O verdadeiro homem não é aquele que conquista a cada dia uma mulher, mas o que conquista a mesma todos os dias.” O gran finale romântico, em uma pira robertocarleana, freou o ímpeto dos aprendizes, após muito lero picante.

No entanto, a seguir, nova carga de tensão erótica invadiria as veias. Imediatamente, fomos conduzidos ao setor de compras da casa por uma loira insinuante. Bem solícita, ela ia destrinchando os apetrechos disponíveis.

Naturalmente, caminhamos até o último e apertado ambiente. E, no espaço onde era possível avistar reproduções da genitália masculina, a moça soltou: “Sabem o que fazer com isso aqui?”, ao mesmo tempo em que levantava o dedo indicador. Ninguém ousou responder. Dois segundos de eternidade depois, a guia de cabelos descoloridos mostrou um anel de borracha, introduziu a peça lentamente no dedo e concluiu… “É ótimo para retardar a ejaculação.”

Info/Gazeta do Povo

DISCOS INSACIÁVEIS
Música é fundamental para criar o clima perfeito. Vasculhe na internet e mande ver nos discos abaixo que não tem erro.

Barry White – Stone Gon’
Peça para uma pegada mais clássica, melada e aveludada na voz de trovão do estiloso barbado dos anos 70. “Girl It’s True, Yes I’ll Always Love You”.

Gil e Jorge – Ogum Xangô
Para os amantes do drible, do suingue (não confundir), uma longa viagem psicodélica e percussiva de dois mestres da música brasileira.

Jimi Hendrix – Blues
Pule para a faixa 2 (“Born Under A Bad Sign”) com o seu baixão mal-intencionado e se deixe levar pela pegada luxuriosa do gênio da guita.

Ohio Players – Orgasm
O que dizer de uma finíssima coletânea soul com esse nome? E que tal as quatro primeiras músicas? “Pain”, “Pleasure”, “Ecstasy” e “Climax”.

Lovage – Music to Make Love to Your Old
Projeto paralelo do ex-vocalista do Faith No More, Mike Patton, muito cool (não confundir) e sensual para uma noite invocada.

James Brown – Sex Machine
Já veio embaladão da night? Na onda de uma performance mais explosiva? Entre na onda do funk suado do inesquecível Poderoso Chefão.

Roberto Carlos – 1972
O trabalho mais inspirado do Rei, um mostruário de músicas românticas embaladas em puro soul (exclua “Traumas” e “Se eu Partir” para não perder o embalo).

1 Comentário

Arquivado em Fuleiragem

Uma resposta para Etiqueta sexual para marmanjos

  1. Como é bom ler travessuras da dupla Bude Pugle.
    Viver Bem poderia efetivar a dupla para mais aventuras pitorescas!
    abraço a todos.
    dudE

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